Como esperado, o governo Donald Trump deu uma porrada em empresas e empregos brasileiros ao confirmar o tarifaço de 25% sobre uma parcela de nossas exportações para lá. O motivo principal não é comercial, mas geopolítico. Os EUA querem dobrar o Brasil, obrigando-nos a jogar o Pix no lixo, dar salvo-conduto às Big Techs e eleger Flávio Bolsonaro que já mostrou que abraçaria o "America First". Brasil? Maybe Later.
É justo que os EUA, caso se sintam prejudicados comercialmente, peçam mais do Brasil. Mas a questão aqui é outra e pouco adiantariam as tentativas de negociação realizadas por diplomatas, técnicos, políticos e empresários brasileiros e norte-americanos.
Por exemplo, a Casa Branca reclamou do desmatamento brasileiro usando dados antigos, ignorando que a taxa de perda florestal na Amazônia hoje é a menor em uma década.
Tampouco adiantou mostrar que empresas norte-americanas de cartão de crédito estão ganhando mais após o Pix ter sido implementado.
É uma encenação chulé afirmar que o Brasil causa prejuízos ao comércio norte-americano, uma vez que éramos deficitários na balança comercial com os Estados Unidos há 17 anos. Ou seja, pagamos muito mais do que ganhamos.
Enfim, diante de argumentos, não há fatos que resistam.
É bastante reveladora a postagem no X feita pelo secretário de Estado norte-americano Marco Rubio após o tarifaço ter sido divulgado. "No último ano, Lula colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso", disse. Mais claro do que isso só se afirmasse que o governo brasileiro se negou a ficar de joelhos.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, liderada por Paulo Skaf, que faz oposição sistemática ao governo, nem corou ao ir na mesma linha, dizendo que nosso país está em "desalinhamento político com Washington", fazendo com que o Barão do Rio Branco se remexesse no túmulo. Uma forma bonita de defender subordinação.
A crítica, pelo menos, é mais elegante do que a declaração da diretora-executiva da Fiesp que atacou o fim da escala 6x1 em audiência no Senado porque, segundo ela, a mudança vai impedir que ela tenha um salão de beleza disponível aos sábados.
Vale lembrar que o senador Flávio Bolsonaro, que foi a Washington, segundo ele, para defender os interesses do Brasil, pediu a Rubio a "suspensão" do tarifaço até que ele pudesse ganhar as eleições. Isso mesmo: não foi o fim, mas a suspensão.
Confessou que a medida ajudaria Lula ao lhe entregar o discurso da defesa da soberania nacional. Como já dito: Brasil? Maybe Later. E, mesmo assim, a vassalagem não surtiu efeitos.
Como relatado por Mariana Sanches, o UOL, Trump deixou de fora produtos que podem afetar a inflação nos Estados Unidos, como carne bovina e café. Com isso, cerca de 20% das exportações brasileiras para lá deverão ser afetadas. Ainda assim, é muito, mas governo e setor produtivo vão ter que dar uma rebolada novamente para encontrar seja escoamento, seja em outros países, seja no mercado interno.
O tarifaço entra em vigor no próximo dia 22 de julho, durante o início das convenções partidárias que escolherão oficialmente os candidatos e candidatas à Presidência da República. Como a medida é uma clara tentativa de interferência no resultado das eleições, buscando pintar o continente americano de laranja, faz sentido.
Pelo menos, as coisas são mais transparentes do que na época da Guerra Fria, quando o governo dos Estados Unidos interferia politicamente em outros países nas sombras para derrubar governos e colocar fantoches. Esta, claro não será a única nem a última ação para tanto. A eleição está apenas começando.
Trump não está mandando a fatura de uma dívida comercial, que não existe, mas tentando cobrar do Brasil obediência política. E Flávio Bolsonaro já avisou que aceita pagar a conta, desde que a sua parte seja depositada antecipadamente nas urnas.
por Leonardo Sakamoto (Colunista UOL)

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