A Universidade de São Paulo (USP) vai conceder um diploma honorífico à estudante potiguar Lígia Maria Salgado Nóbrega, perseguida e morta pela ditadura militar em 1972, aos 24 anos.
A estudante nasceu em Natal mas viveu em São Paulo desde criança, tendo cursado Pedagogia na USP. A homenagem póstuma realizada pela universidade faz parte do projeto Diplomação da Resistência, que tem o objetivo de conceder diplomas honoríficos a 31 estudantes da USP mortos durante a ditadura militar brasileira, a fim de reparar as injustiças e honrar a memória dos ex-alunos. Segundo a Comissão da Verdade da USP, as vítimas fatais na Universidade foram 39 alunos, seis professores e dois funcionários.
“O projeto de diplomação dos 31 estudantes mortos pela ditadura atende a um anseio antigo dos sobreviventes e familiares pelo reconhecimento, por parte da Universidade, de que estes estudantes tiveram suas trajetórias tragicamente interrompidas. É obrigação, tanto da instituição quanto da sociedade civil, refletir sobre esse cenário”, afirmou Renato Cymbalista, coordenador da diretoria de Direitos Humanos e Políticas de Reparação, Memória e Justiça da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), em declaração ao site da instituição.
Para o ativista e pesquisador dos Direitos Humanos Roberto Monte, iniciativas como essa lembram às novas e velhas gerações o que aconteceu. Ele também faz um paralelo entre a luta dos militantes contra a ditadura militar brasileira e dos episódios recentes de atentado à democracia.
“É muito interessante que faça-se não só esse reconhecimento histórico, mas também coloque o que está atrás de cada uma dessas pessoas e de movimentos. De um lado, você tem movimentos como aquele da turma de Bolsonaro, que são movimentos antinacionais. São pessoas que batem continência para outras potências. São pessoas vendidas à turma de fora. E no outro, você tem jovens idealistas que colocaram tudo em risco, inclusive sua própria vida, como Lígia Maria Salgado Nóbrega”, aponta.
“Você, para querer ser independente, tem que ter conhecimento, tem que ter identidade. Identidade você só consegue quando você conhece a história”, define.
A cerimônia de diplomação honorífica de Lígia Maria Salgado Nóbrega acontece no dia 3 de abril de 2025, às 16h, no auditório da Faculdade de Educação da USP, enquanto outras homenagens a estudantes mortos já estão acontecendo.
Na última sexta (28), por exemplo, a Escola Politécnica da USP fez a diplomação póstuma rememorando a trajetória dos estudantes Lauriberto José Reyes, Luiz Fogaça Balboni, Manoel José Nunes Mendes de Abreu e Olavo Hanssen. Além da cerimônia de diplomação, foi realizada uma exposição e uma roda de conversa antes do evento.
Quem foi Lígia Maria Salgado Nóbrega
Segundo o site Memorial da Resistência, Lígia ingressou em Pedagogia na USP em 1957, “destacando-se por sua capacidade intelectual, por seu empenho em modernizar os métodos de ensino e por sua liderança no Grêmio de Pedagogia.”
Em 1970, passou a militar na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), organização de resistência à ditadura militar que contou, dentre outros nomes, com Carlos Lamarca e a ex-presidenta Dilma Rousseff.
Por usa atuação em uma organização de orientação guerrilheira, a potiguar criada em São Paulo passou a viver na clandestinidade e mudou-se para o Rio de Janeiro. Morreu aos 24 anos, em 29 de março de 1972, quando estava grávida de dois meses, durante uma operação policial realizada em uma casa que funcionava como aparelho da VAR-Palmares.
O episódio ficou conhecido como Chacina de Quintino. A ação foi organizada por agentes do Destacamento de Operações e Informações (DOI) do I Exército, contando com o apoio do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara(DOPS/GB) e da Polícia Militar (PM).
De acordo com o relato presente no Memorial da Resistência, depois de cercarem o local, os agentes entraram na residência e atiraram contra os que estavam dentro da casa. Junto com Lígia foram mortos outros dois integrantes da VAR-Palmares: Antônio Marcos Pinto de Oliveira e Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo. James Allen Luz, militante da mesma organização, encontrava-se no local mas conseguiu escapar do cerco.
Segundo a versão oficial divulgada pelos órgãos do Estado à época, Lígia teria morrido por disparo de arma de fogo depois de ter reagido à ação dos agentes dos órgãos de segurança. Contudo, as investigações indicaram que a estudante grávida morreu depois de ter sido ferida por disparos durante a invasão do aparelho da VAR-Palmares em Quintino.
Em entrevistas realizadas pela Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ), moradores de Quintino que eram vizinhos da residência à época dos fatos relataram que a polícia já se encontrava no bairro desde o final da tarde do dia 29 de março, preparando a operação que ocorreria à noite. Os moradores ainda afirmaram que os barulhos dos disparos não vieram de dentro da casa onde os militantes se encontravam, mas do lado de fora da casa, de onde partiu a ação dos agentes do Estado. Mais recentemente, manifestação apresentada pela equipe de perícia da Comissão Nacional da Verdade (CNV), baseada em documentos produzidos na ocasião dos fatos por órgãos do Estado, apontou que não havia nenhum vestígio de pólvora nos corpos das vítimas nem armas no local, o que permite inferir que não houve troca de tiros, tratando-se de uma ação unilateral dos agentes da repressão com o objetivo de executar os militantes.
O corpo de Lígia deu entrada no Instituto Médico Legal (IML) como desconhecido no dia 30 de março, mas a família só tomou conhecimento de sua morte posteriormente, através dos noticiários de televisão. O reconhecimento do corpo foi realizado por seu irmão no dia 7 de abril. Os restos mortais de Lígia Maria Salgado Nóbrega foram enterrados no cemitério de São Paulo.
Memória, Verdade e Justiça no RN
Uma ação de reparação semelhante à realizada na USP ocorreu em 6 de dezembro do ano passado na UFRN, quando a universidade realizou a diplomação simbólica a outros dois potiguares mortos pela ditadura: Emmanuel Bezerra dos Santos, do curso de Ciências Sociais, e a José Silton Pinheiro, do curso de Pedagogia.
“Registrar esses acontecimentos do passado é uma maneira de lembrar aos jovens que a democracia é a única forma de governo compatível com a paz e com valores fundamentais, como liberdade e respeito aos direitos humanos”, afirmou, à época, o reitor José Daniel Diniz Melo sobre a relevância da realização da diplomação simbólica aos dois alunos.
A representante da família de Emanuel Bezerra dos Santos, Luiza Maria Nóbrega, recebeu o diploma entregue pela Direção do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), do curso de Ciências Sociais, quando ressaltou a emoção durante o ato, o qual ela nomeou como histórico na Universidade, ao destacar também a honra de representar a trajetória de Emanuel.
Já o representante da família de José Silton Pinheiro, Antônio Gomes Pinheiro Filho, recebeu o diploma da Direção do Centro de Educação (CE), do curso de Pedagogia, ocasião em que agradeceu à UFRN pela cerimônia.
Recomendações da Comissão da Verdade da UFRN
A partir do Relatório Final da Comissão da Verdade na UFRN, foram feitas recomendações à instituição de ensino, que começaram a ser implementadas na gestão da reitora Ângela Paiva, como a aposição de placa simbólica no local onde funcionou a extinta Assessoria Especial de Segurança e Informações da UFRN, no subsolo da Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM); os encaminhamentos para o acondicionamento de acervo de documentos do Arquivo Geral da UFRN, sobre a memória institucional e administrativa; e o incentivo à publicação de trabalhos sobre o período da Ditadura Militar e os seus reflexos no Rio Grande do Norte e na UFRN.
Já na atual gestão, foi realizada a revogação de 33 atos normativos editados entre 1964 e 1984, correspondente ao período da Ditadura Militar. Há, também, para este ano, a previsão de inauguração da revitalização do prédio histórico onde funcionou a Faculdade de Direito da UFRN, para abrigar o acervo documental e audiovisual sobre o período da Ditadura Militar e o material produzido pela Comissão da Verdade da UFRN.
Fonte: Agência Saiba Mais
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